Um vislumbre das estranhas divindades do Mythós de Cthulhu
Um dos elementos mais assustadores em uma aventura (ou campanha) de Chamado de Cthulhu não é o perigo da morte terrível nas garras de uma criatura hedionda. A coisa mais pavorosa, certamente é um confronto com um deus.
O segundo volume do Malleus Monstrorum para Chamado de Cthulhu é totalmente dedicado para as divindades do Mythós de Cthulhu, trazendo páginas e páginas de informação sobre elas, até mesmo com regras para se criar novos deuses e para desenvolver alguns que são apenas mencionados em histórias ou contos pouco conhecidos.
O livro traz algumas informações (e deuses) que nos faz pensar um pouco sobre a própria definição do termo e das entidades mencionadas, que vão muito além de seres com muitos tentáculos e olhos nos lugares errados.

Primeiro que chamar de deus ou divindade é um hábito humano, surgido no desespero de encontrar uma definição possível para tais entidades, que escapam totalmente no compreenção mortal.
Seres de poder imensurável, que não se prendem a nossas leis naturais, que as desafiam e as quebram com sua mera existência, não poderiam ser chamados de criaturas, ou animais ou qualquer outra associação mortal possível. Assim sendo, “deuses” seria uma denominação mais próxima ou possível. Ou apenas seria uma forma de começar a descrever a entidade.
Como chamar algo que pode destroçar um mundo com sua aparição? Ou para qual o tempo nada significa? Ou que atravessa galáxias inteiras num mero piscar da existência?
O ápice de poder para um ser assim, ao olhos da humanidade, seria um deus.
Mas não nos enganemos nem por um segundo, pois as entidades do Mythós de Cthulhu não seres iluminados que cuidam e desejam a nossa evolução espiritual para que sentemos ao seu lado pela eternidade.
Essas entidades são tão amorais e indiferentes quanto uma força da natureza. Seria como tentar buscar empatia e consideração em um furacão ou em um terremoto.

Pior ainda, pois tais seres, as vezes, possuem intenções e objetivos, desejos e vontades que são impossíveis para nós compreendermos. Desígnios que se aproximariam da destruição do universo ou da realidade como efeito colateral.
Na verdade, o horror de percebermos a nossa total insignificância diante desses seres só é superada pelas raras ocasiões em que os deuses do Mythós voltam sua atenção para nós.
Por exemplo, ao contrário da total indiferença do Grande Cthulhu pela raça humano, Nyarlathotep, o Caos Rastejante, parece gostar de manipular e destruir os mortais da Terra, com suas inúmeras e frequentes aparições, suas mil formas e avatares e suas interferências.
Entre as formas humanóides conhecidas de Nyarlathotep estão Aku-Shin Kage, o Esfolado, o Faraó Sombrio (ou Set, Tezcatlipoca ou Thot), o Homem Cornífero (ou o Sombrio, Satanás, Pazzuzu), o Homem do Tique-Taque, o Homem Verde, a Mulher Inchada, a Rainha de Vermelho ou Shugoran.
Ele também aparece em formas pavorosamente monstruosas, como Ahtu, o Assombro das Trevas (ou Voa-da-Luz, Morcego de Areia ou Lrogg), o Demônio Sombrio (ou Pazzuzu também), Equação Kruschtya (uma equação… nem é um ser físico!), a Fera (ou Deus sem Rosto), Habitante das Trevas, a Língua Sangrenta, o Mensageiro dos Antigos, a Neblina Rastejante e muitos outros.

Outro “deus” que parece gostar de surgir na nossa realidade é Y’Golonac, o Grande Antigo mencionado em As Revelações de Glaaki. O mais assustador é que esta entidade utiliza o próprio corpo de seu invocador para se manifestar no nosso mundo, mas não se contenta apenas em reles possessão, distorcendo e corrompendo os ossos e a carne para ajustar o receptáculo aos seus caprichos, criando uma forma humanoide inchada e sem cabeça.
Os motivos de Y’Golonac e da perversão e corrupção que espalha não são totalmente compreensíveis.
De forma similar, outra dividade do Mythós, Shub-Niggurath usa a carne e a vegetação local como inspiração ou material para criar uma de suas formas; o Grande Deus Pã.
Sua aparência remete aos sátiros mencionados na mitologia grega, com o corpo, os braços e cabeça de um humano, mas com pernas, cauda e chifres de bode, e com olhos completamente alienígenas. Não se sabe se este avatar masculino de Shub-Niggurath inspirou a criação do mito grego ou vice-versa. E também pouco se conhece das intenções da divindade quando de suas manifestações, em qualquer uma das formas.
Outra informação contida no Malleus Monstrorum que é ao mesmo tempo curiosa e perturbadora, diz respeito a deuses de mitologias humanas que constam como integrantes do Mythós, como é o caso da deusa Bast, cultuada pelos antigos egípicos e considerada uma deusa prístina.
Outra entidade Sebek, um Antigo Menor (ou uma entidade única, há certas dúvidas sobre isso) parece ter sido confundido com o deus de cabeça de crocodilo Sobek pelos antigos egípcios.
Isso nos faz pensar quantas entidades mencionadas em textos religiosos seriam seres cósmicos do Mythós aprisionados na Terra ou manifestações de forças que não compreendemos e, portanto, associamos com mitos e lendas mais compreensíveis para nós.

Como é o caso de Leviatã, a monstruosidade aquática mencionada em passagens bíblicas, mas que outros tomos e rumores acreditam ser uma das manifestações do Grande Cthulhu (ou algum ser muito associado a ele).
Essas semelhanças trazem perguntas perturbadoras e assustadoras que nos levam a pensar muito sobre o que consideramos “deuses”.
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Rogerio Saladino,
semideus muito menor do
conhecimento que traz pesadelos