Quer dizer, mais uma…
Quando falamos de H. P. Lovecraft, o que se lembra imediatamente é de Cthulhu, a entidade ou divindade cósmica gigantesca com cabeça de polvo e que quando acorda traz insanidade ou destruição. E que tem um nome difícil de pronunciar.
Mas a gente sabe que Lovecraft escreveu muito mais histórias estranhas e bizarras, por vezes pesando mais no lado da ficção científica ou do terror cósmico, ou ambos. E este é o caso de Nas Montanhas da Loucura (no original At the Mountains of Madness), uma novela (maior que um conto, um pouco menor que um romance, considerando os padrões de tamanho e estrutura literária).
A história inicialmente foi recusada pela revista Weird Tales, pelo seu tamanho, pois a revista costumava ter em suas páginas narrativas de tamanho de contos. Mas foi publicada em três partes em outra revista, a Astounding Tales, nos meses de fevereiro, março e abril de 1936.

Naquela época, Lovecraft estava fascinado e até um tanto obcecado pela exploração da Antártica. Vamos lembrar que o continente congelado não totalmente explorado na década de 1930, sendo uma das grandes regiões ainda desconhecidas do planeta. Várias expedições aconteceram entre 1920 e 1930 (e até durante a década de 1940), que causaram sensação no meio científico. Lovecraft tinha um interesse enorme em regiões desconhecidos e não podia deixar aproveitar a oportunidade para criar narrativas fantásticas no frio extremo do sul.
As condições climáticas proibitivas e a distância do lugar tornavam a Antártica perfeita para abrigar horrores além de nossa compreenção, com justificativas embasadas em ciência para perguntas como “porque ninguém viu nada disso antes?” ou “porque essas coisas não saíram de lá?” ou “como isso está conservado a tanto tempo?”.

Na história, um geólogo chamado William Dyer – obviamente da Universidade de Miskatonic – ao ficar sabendo de uma expedição à Antártica, tenta desesperadamente impedir essa expedição, revelando que ele é o único sobrevivente de uma outra expedição anterior, que terminou em desgraça.
A primeira expedição, ao investigar partes do continente congelado, descobriu em montanhas mais altas que as do Himalaia ruínas de uma estranha civilização muito mais antiga que a humanidade. E chegaram até a encontrar restos de espécimes que não conseguem classificar como animais, vegetais ou fungos… ou uma mistura dos três. A partir de então, acontecimentos cada vez mais terríveis e assustadores de abateram na expedição, e apenas Dyer conseguiu sobreviver e voltar para a civilização.
A história apresenta vários elementos do Mythós de Cthulhu que foram utilizados em histórias posteriores de Lovecraft e outros autores, como os Seres Ancestrais e os Shoggoths, além de fazer várias referências a Cthulhu, ao afundamento de R’lyeh, Kadath e até mesmo a Yog-Sothoth.

É muito clara sua influência em filmes como Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), de John Carpenter, apesar de ser baseado em outro livro, Who Goes There, de John W. Campbell Jr. Dá pra encontrar elementos de Nas Montanhas da Loucura até mesmo em Aliens vs. Predador (2004, de Paul W. S. Anderson).
Falar de jogos, digitais e RPGs, inspirados é até covardia. Digno de nota é Beyond the Mountains of Madness, uma expansão de campanha para Chamado de Cthulhu publicada pela editora Chaosium que detalha o que a segunda expedição encontrou no ártico, e foi premiado como Melhor Aventura de RPG pelo Origins Awards do ano 2000.

Um fato curioso sobre Nas Montanhas da Loucura é que já houve tentativas de se adaptar a história em um longa para o cinema, com James Cameron produzindo e com ninguém menos que Guilhermo del Toro como diretor (e também fazendo a adaptação do roteiro). Havia até mesmo a ideia de ter Tom Cruise como protagonista e lançar o filme em 3D. Mas eles tiveram dificuldades em avançar com o projeto, que era um filme de FC e terror, de época, com efeitos especiais caros, sem um romance e sem um final feliz. Del Toro admitiu que a produção foi interrompida e 2025 foi oficialmente anunciada que não aconteceria mais.

Com isso, temos uma história de Lovecraft que é tão… lovecraftiana que já foi considerada impossível de ser adaptada para filme, mas que já teve versões em quadrinhos, como é o caso de Nas Montanhas da Loucura, de Giovanni Masi e Federico Rossi Edrighi, dentre outras.
O terror cósmico do Mythós que nos apresenta, no ambiente mais inóspito da Terra, uma civilização ancestral e criaturas que o homem moderno nunca deveria encontrar.
E sem Cthulhu.
Rogerio Saladino
Que perdeu seus primeiros pontos de Sanidade ao ler Nas Montanha da Loucura.