Re-Spawn: Relendo o clássico – Questões #1 e #2

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Às vezes me pego ouvindo rock dos anos 90.

Um dos que sempre tocam nos churrascos e festas do clube Poliedro de RPG é o Bush. E deles, sempre vai tocar a música Greedy Fly. Essa música e seu clipe são um sucesso do rock dos anos 90, e marcaram uma geração pós grunge. No meu caso, marcaram uma fase da minha adolescência em que eu achava que era gente. Aquela falsa ilusão da fase em que a gente não é nem adulto, nem criança.

Agora, essa fase é única para cada pessoa. No meu caso, um nerd da década de 90, ela foi regada a quadrinhos pseudo-adultos da vertigo, rock pós grunge depressivo de Bush, Smashing Pumpkins e Radiohead, Vampiro: A Máscara, e SPAWN.

Esses dias, desencavei minha coleção de Spawn que estava na casa dos meus pais, e decidi reler as revistas. Existem aqui dois pontos que eu gostaria de atentar antes de seguir: O primeiro – algumas coisas que gostamos quando crianças e jovens são melhores quando deixadas na memória. Ao revisitá-las com olhar adulto, percebemos as falhas que não vimos no olhar inocente de jovem.

O Segundo: Para os quadrinhos, a década de 90 foi extremamente injustiçada. Principalmente a Image. Hoje, sommeliers de quadrinhos viram o rosto para a produção dos anos 90, alguns inclusive chamando a época de “era perdida dos quadrinhos”. Esse argumento vem de alguns que viveram o periodo, e de muitos que apenas ecoam o discurso. Não vou julgar essas pessoas, já que opinião é algo pessoal. Voltemos ao tema.

Desencavei minha coleção de Spawn, e decidi fazer uma releitura completa dela. Ora bola, são gibis de 22 páginas, leitura rápida e fácil. Ou assim, eu pensei…

Questões

O primeiro arco da saga de Spawn se chama “Questões”. Se você ainda não conhece o personagem, aqui é o ponto pra começar. o Tenente Coronel Al Simmons foi traído durante uma missão para o governo americano e morto em serviço. Se negando a aceitar seu destino, ele faz um pacto com Malebolgia, o senhor do oitavo círculo do inferno, para voltar a Terra. Enganado, ele volta cinco anos depois, desfigurado e sem memória.

A Saga incial serve para apresentar o personagem. Além do citado acima, vale dizer, Spawn é criação de Todd McFarlane, um dos fundadores da Image Comics e verdadeira lenda viva dos quadrinhos, com uma das mais bem vendidas fases a do Homem Aranha na Marvel. Sua arte arrojada e dinamica reacendeu o interesse do personagem no grande público.

Essa publicação vai falar das duas primeiras edições de Spawn, publicadas no Brasil pela Editora Abril, e recentemente compiladas lá fora numa edição Omnibus bolada chamada “Spawn Compedium”.

Na primeira vez que li esses gibis eu era um garoto de 12 anos. Li e reli as edições #1 e #2 de Spawn sei lá quantas vezes, preso na narrativa gráfica deslumbrante das páginas de Todd. Hoje, 26 anos e milhares de páginas de quadrinhos depois, vejo com outros olhos.

E continuo impressionado.

Primeiro, a arte de Todd tem uma ousadia que apenas quem não conhece ou não respeita as regras pode apresentar. Seus quadros não são limitados ou definidos por manuais ou regras. Ele não enquadra sua arte à forma existente, e sim, dobra a forma à sua arte. Quadrinhos são um exercício de imaginação, em que o leitor preenche com sua mente o movimento existente entre um quadro e outro. A arte de Todd parece fazer esse movimento de uma forma tão fluída que a imaginação de quem lê parece funcionar em piloto automático.

Mas ele não está sozinho em sua missão de chacoalhar as regras e padrões da produção de quadrinhos. Na colorização impressionante e (me torno repetitivo, em um discurso hoje em dia, mas para a época não é possível pensar de outra forma) revolucionária, Steve Oliff (que já havia desbundado o mundo com as cores da edição ocidental de Akira) dava vida e emoção ao épico drama que está apenas começando… (realismo, não. Na década de 90, se você quisesse realismo, comprava a VEJA…)

Mas, e a história…?

Tendo falado da arte, falemos do roteiro das edições #1 e #2 de Spawn: Todd McFarlane nos entrega a base de toda a saga em duas edições que falam muito, e pouco, ao mesmo tempo. Na edição #1, abrimos a leitura com a cobertura jornalística da morte de Al Simmons, no final da década de 80, ainda. Quem leu “Batman: O Cavaleiro das Trevas” pode achar que Todd imitou algumas coisa de Miller aqui, mas a verdade é que Todd foi auxiliar de Miller no clássico da DC, e ele mesmo disse que suas intervenções foram maiores do que mero auxiliar, e ele não foi creditado nisso… sabe-se lá quem teve a ideia original da cobertura jornalística, então. Suas grades iniciais são de 10 quadros, na primeira página, e então, 9, nas próximas. Essa alta quantidada é usada para expressar ações rápidas, ou ainda, causar um certo clima “claustrofóbico” como em Watchmen.

O artista faz um uso habilidoso dessas grades, e logo nas primeiras páginas sabemos tudo, e nada, sobre o personagem: O cara foi traído, por amor, fez um pacto, voltou a vida, e foi traído de novo. Ponto. O que ele fazia antes ainda não é revelado, mas o que precisamos para acompanhar a jornada, já nos é entregue de inicio.

Na edição #2 somos apresentados a um dos maiores antagonistas de Spawn: O demônio Violador. Ainda vemos ele exterminando mafiosos, arrancando seus corações. Aqui são colocadas pedras fundamentais do elenco de apoio do personagem. Além do bocudo Violador, temos os envolventes Sam e Twitch, dois policiais de Nova Iorque que mais tarde seriam escritos por Brian Michael Bendis (sim, o cara do revival da Marvel… falaremos dele depois). A edição #2 também é extremamente famosa nos quadrinhos por mostrar justamente a visão social de Todd McFarlane. É aqui que descobrimos que Spawn, deformado, pode usar seus poderes para se transformar em um homem normal, branco e louro. Só que Al Simmons é negro!

Eu fiz essa releitura em duas edições. Na primeira publicação, em revistas individuais #1 e #2, e depois numa republicação da editora Abril que trazia as duas em uma, junto com a fita de vídeo da série animada da HBO. Apesar dessa segunda versão ainda manter um tratamento de luxo para o personagem, na primeira publicação o papel era couchê mais liso, resistênte e brilhoso, bem parecido com o utilizado na nossa edição de Hellspawn. Eu vejo hoje que a história, ainda em seu início, envelheceu muito bem, e ao contrário do que alguns detratores dos quadrinhos noventistas possam dizer, ainda vale muito a leitura. Spawn se tornou um clássico revolucionário, e se você quer entender o porquê, coloque sua camisa preta do Nirvana, toque Greedy Fly do Bush, e vá ler seu gibi…

Você encontra seu gibi de Spawn, aqui.

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